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OPINIÃO, POLÍTICA

Guerra e Paz

Se a aparência revelasse a realidade, não haveria lugar para a ciência. (K. Marx)

A Relação entre essas duas palavras tem sido objeto de muitos escritos. Não vou me ocupar de seus significados óbvios, senão para partir da premissa de que elas formam uma composição dialética, porquanto é impossível separá-las como situações isoladas. Como nos encontramos em um momento no qual ambas se encontram em debate, vale a pena discorrer sobre o que se passa com o emprego dessas palavras.
Liev Tolstói escreveu com o título desse artigo o mais célebre e volumoso romance publicado em 1867 no qual se refere à Rússia no período de Napoleão Bonaparte. Sua obra com mais de 1200 páginas é uma das leituras mais densas, épicas e eivadas de situações humanas que a torna um retrato do gênero humano, envolto com suas contradições. Valho-me do título para refletir sobre o que se passa nessa guerra da Rússia e da Ucrânia, cuja essência está mais fora do que dentro das fronteiras desses dois territórios nacionais.
A contradição entre guerra e paz na concepção dialética implica que estamos trabalhando com um fenômeno que comporta a contradição em si mesma, ao contrário da contradição aristotélica segunda a qual se alguma coisa é afirmativa significa que há uma oposição a essa afirmativa. Logo, a negação. Na concepção dialética as coisas fazem parte de um mesmo fenômeno ou fato. Assim, guerra e paz não são coisas tão independentes como possa parecer. Integram-se de tal forma que não se pode tratá-las separadamente, pois elas contêm sua própria negação.
Deixando de lado essas questões conceituais e examinando a guerra desencadeada pela Rússia, uma preliminar se coloca: por que a demanda da Rússia diante da iminência da entrada da Ucrânia na OTAN não foi levada a sério? Afinal, tratativas aconteceram e alguns interlocutores demonstraram preocupação em resolver os obstáculos interpostos para que se chegasse a uma solução que atendesse as partes litigantes, a começar pelos países que compõem a União Europeia.
Não há dúvida que a presença ativa do complexo industrial militar, constituída durante a Segunda Guerra Mundial nos EUA e desde então mantido como um instrumento voltado para os interesses dos grupos econômicos daquele país em sua faina imperialista, jamais deixou de influir nas relações internacionais. Mesmo após o desmonte da URSS, esse complexo fomenta guerras localizadas com vistas à modernização dos artefatos bélicos de modo a monitorar a política externa norte-americana, independentemente dos partidos que estejam no governo.
A própria sobrevivência da OTAN é uma demonstração de que sua desativação não interessa a esse complexo, pois ele é parte integrante da essência mesma de uma economia de mercado fundada nas relações de lucro e acumulação próprias do capitalismo, que em determinados momentos precisa se expandir em função de seus interesses tanto econômicos e financeiros quanto estratégicos. Assim é o imperialismo e assim ele age não importando se a economia mundial não tem mais a presença da comunidade socialista centrada nas repúblicas soviéticas.
A filosofia que move o imperialismo precisa eleger inimigos da “democracia liberal”, assim foi com o fundamentalismo islâmico, o “Jihad”, sob o pretexto de acabar com o terrorismo a ele associado, como agora se volta contra a política de recomposição das perdas da Rússia de seus territórios históricos, para os quais demanda tão somente que não sejam vinculados à escalada da OTAN, cuja única finalidade seria impedir os surtos do nacionalismo exaltado de Putin, que chegou a dizer que o pior acontecimento do século XX foi o desmanche da URSS.
Há nessa operação tramada pelos ideólogos do Ocidente a provocar a reação inesperada do governante russo, o alvo a ser alcançado é a China, cuja dependência do petróleo e gás russo não é pequeno. Essa trama tinha por objetivo criar dificuldade para o regime chinês de modo a colocá-lo entre a tradição calcada numa política de boa vizinhança para dar impulso às mercadorias do país e a parceria com a Rússia. Particularmente com vistas a frear o BRICS em meio a consolidação de sua política presencial da Rota da Seda.
A Ucrânia serve com dois propósitos. De um lado, esgarça uma vinculação histórica de dois povos irmãos através de uma ocupação militar, que se de um lado tem uma razão de ser em face da proclamação das repúblicas da região em Donbass, Donetsk e Lugansk, que solicitaram apoio para consolidar sua autonomia; por outro lado, expõe a Rússia pela ótica da mídia das poderosas agências de comunicação ocidentais transformando-a no grande vilão da questão. Trata-se, neste caso, de uma guerra híbrida levada às últimas consequências e com desfecho ainda incerto do ponto de vista das implicações no cenário mundial.
Há um dano que merece atenção. Refiro-me à diversidade de opiniões no campo das esquerdas socialistas, mesmo as de orientação marxista. Ela decorre de um esquecimento, porquanto na história dessa tradição socialista a bandeira da paz sempre foi hasteada, exceção feita quando do combate ao nazifascismo. Mesmo durante a vigência da Guerra Fria, a palavra de ordem preferencial era a de manutenção da paz no cotejo das diferenças e demais contradições expressas pela luta de classe no âmbito internacional. Desconhecer esse dado histórico e buscar alinhamento na atual guerra de narrativas no embate intercapitalista é deixar de lado a posição justa, da paz como defesa intransigente da humanidade contra o caos, não importa as razões que o tenha ocasionado.
Enquanto prevalecer a lógica do capital não haverá paz. Pode-se desejar concentrar forças na matriz principal desse modo infernal de produção tirando a sua hegemonia, mas seu deslocamento para um outro centro não vai garantir que tenhamos a paz fraternal dos povos, cujos anseios de vida melhor devem inspirar-nos para a luta pela remoção do mal maior, que nos tem causado sua peregrinação ao longo da história. Paz e justiça social devem ser a consigna de todos os povos, e elas só são alcançadas com a implantação de uma sociedade socialista.

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