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MAÇONARIA, MULHERES, OPINIÃO

NEGROS NO SEIO DA MAÇONARIA

Uma história escondida: maçons negros no Brasil do século XIX

Quando nos remetemos à inserção social de homens negros, livres e libertos, no tempo do Império, pensamos rapidamente em arranjos de apadrinhamento. Não é necessário um estudo muito apurado para encontrarmos alguns exemplos desse modelo de sobrevivência social. A sobrevivência social de homens negros nascidos livres e libertos dependeu do estabelecimento de laços de sociabilidade, que os habilitava a circularem em certos espaços. E, mesmo se valendo de tais arranjos sociais, que pareciam ser eficientes, observamos que a entrada efetiva da maçonaria no Brasil no início do século XIX colaborou em certo sentido para a modernização dessas relações.
A maçonaria carregava em si elementos próprios desse modelo de sociabilidade, pois era uma sociedade de ajuda mútua, iniciática, acrescida de outros elementos como a ritualística e o segredo compartilhados por aqueles que nela ingressam. Tínhamos aí uma espécie de “apadrinhamento maçônico”, novidade que atrairia, sobremaneira, jovens estudantes, carreiristas iniciantes, bem-nascidos, mas também homens remediados, das camadas menos privilegiadas. As possibilidades vislumbradas na maçonaria atrairiam também personagens negros importantes como Francisco Gê Acaiaba Brandão de Montezuma (1794-1870); Joaquim Saldanha Marinho (1816-1895), Luiz Gama (1830-1882), José do Patrocínio (1853-1905), Eutíquio Pereira da Rocha (1820-1880) e tantos outros, cujas identidades étnicas maçônicas não nos foram reveladas.
O fato é que para esses homens negros constantemente preocupados em estarem na vanguarda das novas correntes de pensamento, tais como o republicanismo, anticlericalismo e o abolicionismo, de inspiração europeia e norte-americana, a maçonaria serviu como esteio às suas ambições. Ela aglutina pessoas com posições políticas distintas, consolidando-se como espaço para o diálogo, ambiente propício à discussão. Assim sendo, esses homens trataram logo de se incorporarem a esse formato de organização. Lá não se depararam com as barreiras sociais que experimentaram fora do círculo maçônico, encontrariam espaço para encampar suas bandeiras políticas e sociais, já que “a maçonaria era lugar da circulação de ideias e aprendizado de práticas modernas tais como: a escolha dos associados, eleição para os cargos maçônicos, o debate entre os pares e a deliberação”, conforme observado por Françoise Jean de Oliveira Souza e Marco Morel, no livro O poder da maçonaria. A história de uma sociedade secreta no Brasil.
Não há dúvidas de que para os homens negros, compor o quadro de uma loja maçônica tinha significado muito mais amplo que para os demais membros, dado o fato de que esses homens, invariavelmente, estiveram às margens dos outros espaços de sociabilidade existentes. Com efeito, isso aparentemente não se reproduziu no círculo maçônico, onde a cor do irmão não seria um tema em questão determinante de suas possibilidades de vinculação e atuação.
A experiência de rejeição de Luiz Gama na Academia de Direito de São Paulo ilustra bem esse sentimento. O abolicionista teve a sua matrícula negada na instituição de ensino. Foram inúmeras as ocasiões em que Gama mencionou tal episódio com certa amargura, lançando mão da frase “a inteligência repele pergaminhos”. Tal sensação de mutilação social, Luiz Gama não carregou consigo, compartilhou com o grande público via artigos de jornais ou através de seus poemas, publicados, em seu livro Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, de 1859 e, reeditado dois anos depois.
Luiz Gama. Fonte: Arquivo Nacional / Fundo Correio da Manhã

Renata Ribeiro Francisco – Doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), pós-doutoranda em História vinculada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); E-mail: renataribeirofrancisco@gmail.com; Instagram: @ren645.

Continua…

1 Comment

  1. A biografia Luiz Gama, foi o distico do GOB RJ, que tb cobrou de todas as lojas do GOB RJ um trabalho sobre este heroico irmão, exemplo de ser humano.

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