Falar sobre a participação do maçom na vida política do País é um risco muito grande. Isto porque temos que enfrentar a estreita compreensão, de muitos, de que maçonaria e política não se misturam e, segundo, porque corremos o risco de sermos interpretados como de direita ou de esquerda e estar defendendo este ou aquele lado, por estarmos vivendo um momento de radicalização e intolerância, num verdadeiro processo de satanização de um e de outro lado, onde irmãos se agridem e se ofendem, apenas por pensarem politicamente diferente, numa verdadeira demonstração de despreparo, mesmo para ser maçom.
Hoje, vemos com muita tristeza, uma gama muito grande de irmãos aplaudindo os escroques, da velha política, apenas porque adaptaram seus discursos à nova realidade, sem nenhuma autocrítica de seus passados (de mensaleiros e lavajatistas), como se tais figuras fossem hoje comprometidos com a real mudança do País.
Não tenho dúvidas de continuar repetindo uma bela crônica do saudoso João Ubaldo Ribeiro que, em 2003 ou 2004, já dizia que mesmo que o Lula renunciasse naquele momento, quem viesse depois dele nada resolveria porque teria que “continuar trabalhando com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos todos nós…”. Dizia também que enquanto não sinalizarmos um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém resolverá os problema do País e, parodiando João Ubaldo, afirmo que “ninguém servirá (…) Não serviu o Collor, não serviu o Itamar, não serviu o Fernando Henrique, não serviu o Lula, não serviu a Dilma, o Temer, não está servindo Bolsonaro e nem servirá o que vier depois….”, pois quem vier depois vai ter que trabalhar com a mesma matéria prima. Com mesmo povo impregnado dos vícios dos quais nunca nos afastamos que é a corrupção.
Sim, porque nós, os brasileiros, temos um pequeno corrupto dentro de cada um de nós. E isso começa em casa quando mandamos nosso filho atender o telefone e dizer que não estamos em casa, para não atender ao cobrador, ou a um amigo que está nos importunando. E prossegue, quando não respeitamos a vaga de idoso ou de deficiente nos estacionamentos. Quando furamos a fila do banco ou pegamos um atestado médico sem estar doente, para não ir trabalhar. Quando fazemos gato na energia ou na água e até mesmo filamos o wi-fi do vizinho. Quando nos negamos a dar recibo de prestação de serviço para não pagar imposto de renda ou forjamos dependentes para diminuir a incidência do imposto.
A corrupção no Brasil não é sistêmica. Ela é endêmica e está dentro de cada brasileiro. O Presidente, o Governador, o Prefeito, os Senadores, os Deputados Federais e Estaduais e os Vereadores sempre serão o reflexo da própria sociedade que o elege e que sempre exige alguma vantagem para votar em alguém.
Para melhor se entender, a corrupção é um “vício” herdado do mundo ibérico, resultado de uma relação patrimonialista entre Estado e Sociedade. E aqui no Brasil ela começa com o nepotismo de Pero Vaz de Caminha que, ao aqui desembarcar, escreveu uma Carta ao Rei D. Manuel, solicitando a nomeação de seu genro para ocupar e administrar o novo território, dando início a um ambiente de tal modo favorável à prática da corrupção, que já no século XVII, o padre Antônio Vieira denunciava essa prática através do Sermão do Bom Ladrão, onde expõe corajosamente os desmandos praticados por colonos e administradores do Brasil nos seguintes termos:
O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões de maior calibre e de mais alta esfera; os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento distingue muito bem São Basílio Magno. Não só são ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com mancha, já com forças roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo: os outros se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam.
E a Maçonaria? O que tem feito contra tudo isso?
No meu entender não tem feito muita coisa ou não tem feito nada. As poucas manifestações que vejo, não da Maçonaria, mas de maçons contra a corrupção, é sempre de forma parcial, sempre se aliando a um dos lados que brigam pelo poder e que, quando se fala de corrupção, o corrupto é sempre o político do outro partido, pois até mesmos corruptos declarados e já condenados, passam a condição de heróis quando passam para “nosso lado”.
A Maçonaria tem estado muito acéfala, muito alheia as questões políticas, não só no Brasil, mas no mundo. Prova disso, é que um dos principais temas da XIV Conferência Mundial das Grandes Lojas, realizadas em novembro de 2015 em San Francisco, na Califórnia, e que tive a honra de participar, representando nossa Grande Loja, foi  “A MAÇONARIA E O DESENVOLVIMENTO”  já tratava disso. E lá, muito se criticou a indiferença da maçonaria em relação à política. E a principal constatação foi feita em relação aos próprios Estado Unidos onde, naquele momento, experimentavam três presidentes consecutivos que não eram maçons, coisa que não acontecia a mais de 100 anos e, hoje, já amargam cinco presidentes consecutivos que não são maçons.
No Brasil, essa indiferença é ainda maior. E se funda no errôneo entendimento de que não se pode discutir política na maçonaria. Digo errôneo porque entendo que a maçonaria devia ser uma escola de política, começando por ensinar aos irmãos como se faz política, como se debate, sem os arroubos de “eu estou certo e o outro está errado e pronto”.
O maçom, no mínimo, tem que estar preparado para o debate, não só interna corporis, mas também no mundo profano, onde tem a obrigação de combater o radicalismo, o sectarismo e a intolerância. Quem não concorda comigo, não é meu inimigo político, não é burro e nem precisa ser afastado do meu caminho. O que precisamos, é aprender a discutir política e, nesse quesito, que me desculpem os meus irmãos, numa escala de 10, não conseguimos atingir o número 2.
Fico muito triste quando vejo maçons defendendo ou acompanhando lunáticos que vão para a rua defender a instalação de ditadura, cerceamento de liberdades e segregação de pessoas que pensam diferente. Esse tipo de conduta vai de encontro a todos os princípios cultuados por nossa Ordem. Percebo que estes irmãos esqueceram seu juramento sagrado, onde juraram defender os princípios de liberdade igualdade e fraternidade, passando a compactuar com os ideais absolutistas reacionários e antidemocráticos pregados pelos escroques da política brasileira.
Pode parecer fisiologismo. Mas para mim, política é uma coisa muito séria e requer seriedade e caráter para dela participar. E aqui não se confunda política com político ou com politicagem. O homem é um animal político por excelência. Até quando me escuso de participar da política, estou sendo político, pois estou assumindo uma posição que, por mais equivocada que seja, não deixa de ser política.
Uma coisa é certa. Quando nos recusamos a discutir política é porque não entendemos ou não estamos preparados para a discussão, daí a minha afirmação anterior de que a Maçonaria deveria preparar seus adeptos, também nesse campo. Política é filosofia de vida e um dos objetivos da Ordem é polir o homem sob todo os aspectos que envolve a vida.
É uma grande contradição, e bastante ilógico, afirmar que é proibido discutir política na Maçonaria. Se é proibido, a Maçonaria fazer política, o que aconteceu com os maçons franceses, quando participaram ativamente e comandaram a Revolução daquele País? O que aconteceu com os maçons americanos quando foram os responsáveis diretos pela independência dos Estado Unidos? E para não ir muito longe, o que aconteceu com os maçons brasileiros que participaram ativamente e foram responsáveis pela independência do Brasil, pelo fim da escravatura, pela Proclamação da República, enfim, por vários atos na vida política do País? Foram eles punidos ou foram condecorados por seus feitos? Ao que me consta, esse é um legado que orgulha a Maçonaria e seus adeptos, e que joga por terra essa visão estreita e sectária de que a maçonaria não pode fazer política.
Aliás, soa muito contraditório quando muitos irmãos, que defendem a proibição de discussão política dentro da Maçonaria, muitas vezes tem defendido que a Maçonaria deveria declarar seu apoio público aos atos do Governo. A Maçonaria não é uma instituição de governo. Guardada as devidas proporções, ela tem a mesma responsabilidades dos órgãos de Estado que é defender a ordem jurídica e o estado democrático de direito.
A grande verdade é que, nós maçons, não conseguimos vencer nossas paixões e, muito menos, polir a nossa pedra bruta. Não temos preparo e muito menos capacidade para discutir política sem agredir ou sem se melindrar. Como não temos argumentos para o debate franco, sempre dele nos retiramos agredindo o interlocutor e quando somos derrotados no debate simplesmente nos retiramos da Ordem com as desculpas mais esfarrapadas, quando na verdade o fazemos por falta de capacidade, por falta de formação, e por falta, mesmo de fraternidade, de tolerância e de compreensão.
Por tudo que aqui foi dito, espero que essa concepção retrógrada de que a maçonaria deve ser apolítica, seja superada, e que nossa Ordem, a nível nacional e mundial, assuma a postura progressista, que prega ter, em seus rituais, onde o debate político, dos grandes temas de interesse da sociedade não passem ao largo de nossos Templos, mas sejam assumidos e debatidos sem paixões partidárias, onde o alvo seja o interesse da sociedade e não os mesquinhos interesses dos partidos e dos governos.
Na luta contra o maior câncer que corrói nossas instituições, a corrupção, e contra qualquer ato que atente contra as liberdades democráticas, o maçom deve se engajar de corpo e alma, sem vestir a camisa deste ou daquele partido, porque em nosso País a corrupção não tem cor. Somos uma instituição que congrega, ou deveria congregar, os melhores filhos da sociedade, e temos que transformar nossa voz na expressão dos interesses dessa mesma sociedade, em tudo aquilo que possa não só melhorar a qualidade de vida mas também de resgatar a dignidade de nosso povo.
Talvez o meu sonho seja inglório, pelo menos para uma ou duas gerações. Mas acredito, sinceramente, que nossa Ordem tem todos os predicados para se firmar como vanguarda da sociedade e de suas aspirações e valores, bem como porta voz dos desafortunados e dos destituídos de condições para uma vida digna. Se não conseguir atingir esse objetivo terá sido em vão toda a sua existência, pois não somos um clube de amigos e muito menos uma entidade de socorro mútuo, uma vez que, não obstante tenhamos a amizade e a fraternidade como princípio, o nosso objetivo principal é bem maior.

É como penso, respeitando as opiniões contrárias.

Tríplice a Fraternal Abraço
Edilson Araujo dos Santos
Grão-Mestre da GLEPA